O trem errado, a dedicatória, a despedida

photo-3

A entrevista tinha ficado marcada para meados de fevereiro. O combinado, antes, era uma conversa rápida depois de uma palestra em janeiro, mas a fila de gente que juntou em volta dele no final tornou a coisa impossível. Marcou então de me receber na sua casa, no norte de Londres, dali a quase a um mês.

Era uma tarde de sábado, dia de trens vazios e intervalos longos entre um e outro. Vi um trem parado na plataforma sentido norte assim que cheguei na estação e resolvi correr. Entrei rápido, a porta fechou imediatamente e nem lembrei de confirmar se aquele era o local ou o expresso, que vai pulando umas boas estações pelo caminho. Era o expresso. A próxima parada seria dali a 20 minutos já em outra cidade, bem depois de onde iria descer. Nenhuma chance de chegar na hora. Para voltar seria quase o mesmo tempo, mais outros vinte minutos esperando o trem. Já era.

O jeito era ligar para avisar, talvez dramatizando um pouco a minha versão real tão estúpida. Criei na cabeça duas ou três histórias miraborantes, mas tenho esse problema de querer contar sempre as verdades desnecessárias. Peguei o trem errado, estou aqui em outra cidade e vou demorar quase uma hora para chegar. Perdón. Não podia esperar, remarcou para o outro sábado, também às três da tarde.

Dessa vez saí de casa quase três horas antes. Ignorei a opção mais rápida indicada pelo aplicativo – peguei o metrô, mais garantido. Fiquei um bom tempo andando pela região onde morava, um bairro com ruas íngrimes, alguns prédios novos, muitas casas e quase nenhum comércio. Uma hora achei que era ele passando de carro com a mulher em um fusca verde.

Toquei a campainha dez minutos antes, já cansada de esperar. Pedi desculpas mais uma vez, disse que saí de casa cedo para ter tempo de chegar se errasse o caminho de novo. Ele riu, e começou a fazer perguntas. Perguntou de onde eu era, o que fazia, onde estudava, quem eram os professores. Comentou sobre a morte do amigo Stuart Hall, que fundou a escola de Estudos Culturais na Inglaterra. Contou de quando esteve no Rio em julho passado e lhe avisaram que estava frio – 25 graus, era bom levar casaco. Falou que ia ao Brasil de novo ano que vem.

Disse que tinha uma hora para a entrevista, mas o tempo passou rápido. Falava devagar, e cada resposta vinha com um longo contexto que às vezes parecia fugir do ponto, mas uma hora chegava ao tema de pergunta. Tinha só que esperar o tempo certo, não dava para interrromper a qualquer momento.

Fui embora com a entrevista inacabada, combinamos de complementar depois por telefone. Antes, pedi para que assinasse o livro que comprei naquela semana. Não tinha pensado nisso no outro sábado.

A entrevista com Ernesto Laclau, feita cerca de dois meses antes de sua morte, foi publicada no site da Carta Capital.

Anúncios

Uma resposta em “O trem errado, a dedicatória, a despedida

  1. Trabalho e emoção, assim é o trabalho com humanos.
    Lindo texto e, por ser uma entrevista inacabada, tantas possibilidades…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s